O filme Idiocracia foi produzido por
Michael Craig Judge, ele é criador de outros trabalhos como Beavis and Butt-head
e King of the Hill. O ano que foi produzido foi o de 2004, e apesar de já ter
um tempo razoável de circulação ainda não é muito conhecido pela população. O
filme é quase um trabalho de “artista marginal”, não pelos métodos artísticos
populares de produção, mas pela inserção que consegue ter nos meios midiáticos,
ou seja, quase nenhuma. Quem conhece o filme normalmente são pessoas que se
envolvem em meios de cultura mais elevada, e conseguiu ter conhecimento da
produção pela informação de algum amigo, parece que esse é o melhor jeito de
disseminar boas produções.
A maioria dos atores do filme são
desconhecidos, pelo menos fora dos EUA, mas tem um ator famoso, que é o Terry
Crews, conhecido principalmente por interpretar o pai do Chris, no seriado “Todo
Mundo Odeia o Chris”. Diga-se passagem, a atuação desse ator no filme foi
fundamental, pois ele conseguiu representar a essência do filme, que é a
estupidez. Ele aparece como presidente da Idiocracia, e se comporta como um
rapper musculoso, que antes de se eleger tinha sido ator pornô. Quando ele
surge no palanque dá “dedo” para os cidadão, e faz danças no meio do discurso. Sem
a atuação dele, incorporando todos os defeitos do ser humanos, todas as
degenerações, talvez o filme tivesse ainda menos sucesso do que teve.
O filme, conta a história de um
homem e uma mulher que foram usados para fazer uma experiência secreta para o
exército americano, o homem era um militar bem adaptado a sua vida rotineira
que nada tinha a lhe exigir; a mulher era uma prostituta, e tinha sido a única
pessoa do sexo feminino que o exército tinha conseguido mediante pagamento, e
um contrato feito com o seu cafetão. A experiência deveria ser de um ano, na
qual os dois seriam dopados e colocados num caixão durante todo esse tempo. Mas
os responsáveis pela experiência tinham se envolvido com tráfico de drogas e
prostituição ao se relacionarem com a cafetão da prostituta no momento das
negociações, então são presos, e a atividade secreta para, não tendo mais
ninguém que pudesse continua-la.
O narrador do filme explica como a
população vai se desenrolando durante o tempo em que esses dois ficaram no
caixão, que foram mais de 500 anos. Nesse sentido, as pessoas inteligentes
teriam parado de se reproduzir devido aos cuidados em evitar uma gravidez
indesejada, e enquanto isso as pessoas imbecis foram se multiplicando sem
regras que lhes impedissem a procriação. Assim, os inteligentes foram sumindo e
os imbecis tomaram conta de tudo.
Quando os dois acordam se deparam
com um mundo totalmente diferente, onde as coisas estão todas desorganizadas, prédios
caídos e outros remendados, lixo em toda parte, problemas com a fome etc. As
pessoas eram identificadas com uma marca na mão que era como um código de
barra, por onde fossem poderiam ser reconhecidas pelo código – interessante
notar aqui que esse filme sempre apresenta elementos de um futuro da Nova Era,
e essa marca poderia muito bem ser vista como a marca da besta descrito na
bíblia. O rapaz comete uma infração, sem querer, óbvio, é julgado, tendo como
advogado o homem que tinha incomodado ai cair dentro de sua casa na avalanche
de lixo, e vai preso. Na cadeia faz um teste de Q.I. onde descobre que é o homem
mais inteligente do mundo. Como todo mundo é burro ele consegue enganar todos e
fugir da cadeia.
Consegue encontra a mulher, e
começam a procurar uma máquina do tempo a fim de voltar para o passado e
reverter as coisas, no caso a reverter a estupidez, tendo em vista que ele
percebeu que suas ações no passado tinham contribuído para esse estado atual. Quem
o ajuda é o rapaz que ele tinha incomodado sem querer ao cair em sua casa, que
foi seu advogado, e que nessa posição o tinha incriminado - é interessante notar que no julgamento a
emoção tanto do jurado quando do público e dos advogados era o que determinar
as sentenças – no começo ele não queria ajudar, mas quando o militar disse que
voltaria ao passado e depositaria dinheiro na conta dele e que com os juros
chegaria num valor exorbitante passou a ajudar. Essa é uma característica das
pessoas da época, elas gostavam muito de dinheiro, e deixavam de fazer qualquer
coisa para ter dinheiro, o dinheiro era o principal elemento da sociedade. Esse
argumento de que iria ao passado depositar dinheiro na conta do advogado é um
tanto interessante, para qualquer pessoa poderia ser algo a refletir, mas o
advogado só se interessava no efeito ou nos fins, os meios não lhe interessavam,
saber como esse dinheiro ira aparecer de uma hora para outra na sua conta não
lhe interessava.
Eles então fazem essa aventura em
busca da máquina do tempo que somente o advogado sabia onde ficava. Eles então
chegam no lugar onde estava a máquina do tempo, era um parque de diversões, e
tinha sido onde o advogado tinha se formado. O militar ficou surpreso em saber
que ali formava advogados, e o advogado disse que nem ele acreditou no começo
que iria estudar ali, só conseguiu por que seu pai tinha muito conhecimento e “mexeu
uns pauzinhos”. Ou seja, ali era uma das maiores universidades da época.
Foi reconhecido pela polícia e foi
preso, dessa vez, foi solto pelo presidente, interpretado por Terry Crews, que queria
que ele resolvesse o problema da fome, já que era o homem mais inteligente. Ele
ficou surpreso e disse que não conseguiria resolver o problema, mas o
presidente disse que era a única forma de continuar livre. Ele então concordou.
Os ministros usavam um medalhão do
tipo dos rappers americanos, esses medalhões designavam suas funções. Todos os
ministros eram completamente estúpidos, não conseguiam produzir uma gota de
pensamento. Penso que esses medalhões grandes e vistosos representam o caráter
da sociedade atual, que vive de aparência em vez de essência, se apresentar de
forma especial parece ser o ideal, por isso esses ministros precisavam de algo
que chamassem a atenção que denotassem riqueza.
Lhe
deram o papel de resolver o problema que estava impedindo que as plantas
crescessem. Ele então viu que o problema era que em vez de agua se dava um
produto que continha eletrólitos, ele disse que era preciso dar água às
plantas. Todos acharam estranho, um dos ministros disse que se agua fosse bom
tinham plantas na privada, essa era a única função da água naquele momento, a
de dar descarga. Parece que tudo tinha sido substituído por algo
industrializado. Essa parte é interessante, pois ele ao tentar convencer os
ministros a darem água para as plantas pergunta por que eles dão o produto em
vez de agua, então tem como respostar que era por que o produto tinha tudo o
que as plantas precisavam, então perguntou o que as plantas precisavam, teve
como resposta eletrólitos, então perguntou por que as plantas precisavam de
eletrólitos, e teve como resposta por que é bom para as plantas. Percebeu que
pelos meios convencionais não se poderia convencer aquelas pessoas. Isso me
lembra a situação dos intelectuais, que tem se limitado a repetir outros intelectuais,
aplicando conceitos gerias a planos específicos, e os estudantes que apenas
repetem os professores e intelectuais, sendo que nada sai de suas cabeças.
Ele então apelou, afirmou que as
plantas tinham dito a ele que queriam água, foi então que o governo cedeu água
às plantas. As plantas não cresceram, e houve uma grande demissão da empresa
produtora do produto que aguava as plantas, então ele foi preso, e foi
condenado a reabilitação devido ter demitido muitas pessoas com sua ação. Essa era
outra característica das pessoas, não sabia esperar, as plantas seguiam as leis
da natureza, e precisavam de tempo para crescer, mas ninguém sabia esperar
nada, penso que isso seja efeito do mundo tecnologizado de hoje. A reabilitação
era um jogo onde carros de batiam, ele teria um carro pequeno e enfrentaria os
maiores, se sobrevivesse estaria livre. No meio do jogo, já perto de morrer, a
mulher consegue filmar as plantas que tinham crescido, e isso o salva da morte.
Depois disso descobre que a máquina
do tempo era um brinquedo no qual as pessoas passeavam num carro e conheciam as
épocas da história. O militar perguntou ao advogado se ele sabia disso, ele
disse que sabia e que o militar era muito estúpido em acreditar que uma máquina
pudesse voltar no tempo, mas como gostava muito de dinheiro escondeu isso para
receber a grana, aí vem uma das partes mais engraçadas, o militar disse “mas se
ela não volta no tempo, então não poderia depositar o dinheiro na sua conta”.
O interessante dessa máquina era
como ela representava a história, onde Charlie Chaplin aparecia como Hitler, e
a ONU com um dinossauro que acabou com o Nazismo, penso que isso seria devido
aprenderem história apenas pelos filmes, viram o filme de Chaplin e tiveram
essa conclusão.
O filme retratada uma visão inversa
da que temos sobre o futuro, em vez de ficarmos cada vez mais inteligentes, ficamos
cada vez mais estúpidos. Mas penso que esse futuro não tenha se dado apenas
pela multiplicação dos “burros”, mas por que com as tecnologias que temos a
mente humana tem ficado cada vez mais limitada. A televisão pensar pelas
pessoas, as escolas trabalham com imagens como se fosse algo sagrado, tudo de
forma a facilitar o aprendizado, mas na verdade estão apenas impedindo o
raciocínio abstrato. Perceba que no filme a tecnologia é muito avançada, mas as
pessoas são burras, mesmos os líderes eram assim. O face book e outras mídias
sociais tem tomado toda a inteligência das pessoas, são tantas informações que
as pessoas as consomem sem “degustar”, sem refletir, pois não há tempo, já que
sempre tem outra informação. Os intelectuais têm se adaptado a escrever
pequenos ensaios para serem lidos, não mais escrevem grandes artigos repletos
de reflexão, eles se adaptam as massas, se tornam eles próprios massas,
facilitam o entendimento, em vez de as massas se elevarem, os intelectuais se
rebaixam. A onda é escrever o que as massas entendam, de outra forma é ser arrogante.
E cada pessoa tem os seus gurus, se voltam para a produção de um grupo de
autores que escrevem seus artigos e os põem na internet, mesmo que haja outros
pensamentos, só conseguem encontrar aqueles que já estão nas suas listas. Os celulares
têm acabado com a vida privada e com a reflexão individual, todo instante chega
uma mensagem de algum amigo, e as pessoas vão se acostumando a não estarem
sozinhos, mas sempre com alguém, sempre conversando com outros. O caminho é o
da massificação, as pessoas passam a viver apenas a realidade material,
voltadas apenas para fora, para conversas, para fatos, etc., mas o eu interno é
morto, e a reflexão vai se tornando algo obsoleto.
A diferença dessa realidade para a
feudal, é que naquela as pessoas ao se verem e se tocarem reprimiam ações e
comportamentos, nessa outra a repressão se dá nas ideias, são elas que são
massificadas, criando um mundo massificado de ideias e de ideias massificadas,
talvez sem uma moral e costumes controladores, mas com uma penetração e
controle do pensamento. A coisa se inverte, liberdade no mundo material e
prisão do espírito. Era assim que se comportavam as pessoas da idiocracia, eles
eram livres sexualmente, e tinham costumes grotescos que não eram reprimidos,
mas as suas mentes eram como uma pedra, sem nenhuma capacidade de reflexão. Quando
o militar fazia qualquer reflexão as pessoas se sentiam mal, e sentiam dor de
cabeça e tontura. O cérebro é como um musculo, se não trabalhado atrofia. A sociedade
era toda voltada para o consume e prazeres, o que transformou todos em massas
falantes ou animais.
Mas não é só a tecnologia que faz
isso, penso que outro fator é o politicamente correto, que impede qualquer tipo
de ofensa ao que é considerado atrasado, assim eu, por exemplo, escrevi aqui as
palavras estúpidos, burro, etc., esses nomes tendem a desaparecer do nosso
vocabulário, pois o controle do pensamento através do politicamente correto
impede toda crítica a grupos e práticas sociais, e assim aos poucos o que é
estúpidos deverá ser tratado como diferente, e interessante, impedindo qualquer
crítica.
Outra coisa é a moda de levar ao poder
representante de grupos sociais, e isso é visto como uma evolução, no nosso
caso, um Tiririca, um Lula, que fala de boca cheia, e comete os piores erros de
português, o Romário, etc. Vemos prostitutas se candidatarem e por apenas sua
bunda nas fotos para campanha, todo tipo de palhaço se apresenta, a dizemos que
isso é democrático. Aos poucos o grotesco se torna lindo, e teremos presidentas
que subam no palanque apenas de fio dental e sem sutiã. Penso que essa valorização
do grotesco, de prostitutas, de operários, de bandidos, de malandros, etc.,
tudo isso inverterá todos os valores da sociedade, e aos poucos ser herói é ser
o desprezível, e atrasado. Isso fará com que a intelectualidade perca seu
valor, o saber será ridicularizado, e o grotesco será exaltado.
Fico imaginado como serão os
professores universitários, nas orelhas dos livros as fotos dos autores, serão
bundas, serão professores com um copo de cerveja, ou abraçado a mulheres
gostosas, imagino até professoras mostrando a vagina na capa dos livros e isso
será tipo como revolucionário, como uma quebra dos valores e da moral, etc.
Tive essa visão quando reparei nos rostos dos intelectuais do passado, percebi
que os primeiros sorrisos aparecem com os intelectuais materialista, autores como
Stuart Mill, Rousseau, Engels, etc aparecem com um semblante de alegria típicos
da plebe. Marx aparece com uma impressão de “ódio”, mas dá no mesmo, são
expressões da plebe, imanentes. Enquanto que intelectuais idealista não
sorriam, Hegel, Bruno Bauer, Stiner, etc. aparecem com uma espiritualidade
avançada, como se eles não vivessem aquela realidade imanente, mas uma transcendente.
Hoje vemos autores com um sorrido de uma ponta a outra, como Hobsbawn, outros
aparecem fumando, e assim penso que o destino é degenerar.
Imagino um mundo onde um intelectual
do passado acorde dentro de um caixão, como ocorreu com os personagens do filme,
e então no futuro vai procurar livros para ler. Lê então, um livro que usa
termos como “lixo social”, “sucata”, “restos de produção”, “avarias”, e o autor
se atormentar ao não conseguir entender o que está escrito ali, ele pensa que os
termos ali empregados são muito evoluídos e procura uma pessoa que lhe
explique. Então percebe que “lixo social” é lixo deixado pela sociedade, que
sucata é sucata, etc. então ele percebe que os termos designam apenas coisas no
mundo material, não existe abstrações, a linguagem se limita ao mundo mecânico.
Uma sucata não é uma sucata de Certeau, é sucata mesmo, e quem leu Certeau
nessa época levou todos os seus termos ao que seriam no mundo imanente.
Realmente é assim que imagino a evolução da humanidade, estamos perdendo a
capacidade de interpretar coisas, a abstrair, estamos cada vez mais
animalizados. Mas esse é o papel da Nova Era, trocar a Razão pela Intuição ou
emoção.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirESSE FILME TEM LIGAÇÃO COM FÍSICA ?
ResponderExcluirNão
ExcluirExcelente texto 👏👏👏👏👏👏
ResponderExcluirExcelente reflexão, tenho presenciado a degradação do intelecto de forma lenta, persistente e gradativa. Me espanta saber que uma produção musical sob o título "psiquiatra do bumbum" fica em primeiro nas dez mais pedidas...
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